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Autocuidado ou autoengano? A estética como resposta ao colapso emocional

Entre promessas milagrosas e rotinas performáticas, o descanso virou mais uma mercadoria do capitalismo estético. Influencers, cosméticos e um sono colonizado alimentam um ciclo de frustração, ansiedade e perda de identidade, e o que deveria regenerar, agora exaure.



Máscaras de LED, rolos de jade, adesivos anti-idade, faixas de compressão, cosméticos com nomes sofisticados, e até suplementos mastigáveis com promessas “milagrosas”. Nas redes sociais, uma nova tendência estética invade a noite das mulheres: são rituais intermináveis de skincare antes de dormir que transformam o descanso em mais uma obrigação performática. O nome desse fenômeno poderia ser tranquilamente batizado de “monetização do sono”,  a mais recente vítima do capitalismo estético.



Gisele Cristina, de 30 anos, formada em psicologia que atende mulheres, crianças e adolescentes usando a abordagem de Gestalt, deixa claro que os vídeos de autocuidado romantizam e estabelecem “passo a passo” idealizados, gerando cobranças e pressões sociais. Ao não alcançar esses padrões, o público pode experimentar frustração, culpa e baixa autoestima.

“As redes sociais impõem expectativas irreais, alimentando comparações constantes.” - Gisele

E existe uma linha tênue entre o autocuidado e a autoexigência que surge, também, a partir do consumo de vídeos de influencers que são patrocinados, e alguns até produzem, esses cosméticos e produtos milagrosos que, quando falham, transforma o que deveria ser um momento de autocuidado em frustração. E assim começa o terror da autoexigência.

Reprodução/Pessoal
Reprodução/Pessoal

O ser humano busca pertencimento e validação, o que pode levar à adesão automática a padrões estéticos, sem refletir se aquilo faz sentido. ‘’Isso causa desconexão de si, perda de identidade, e o comportamento pode se tornar mecânico, feito apenas para ser visto.’’ diz a psicóloga.


Diagnósticos como resultado do autoengano


Reforçado diariamente nas redes sociais, tem provocado impactos profundos na saúde mental de meninas e mulheres. O que começa como um ritual de autocuidado, muitas vezes se transforma em um ciclo de cobrança e comparação, gerando ansiedade e a sensação constante de que o corpo está sempre em dívida com algum padrão inalcançável. 


A repetição de rotinas complexas, muitas vezes copiadas de influenciadoras sem qualquer orientação profissional, transforma o cuidado em obrigação e não passa mais a se tratar de sentir prazer ou conexão com o próprio corpo, mas de cumprir protocolos estéticos validados por curtidas. Assim, surge a desconexão: a mulher deixa de se perguntar o que realmente precisa e passa a seguir o que “deveria estar fazendo”, abrindo espaço para estresse, exaustão e uma sensação de inadequação constante.


Esse ideal de beleza se impõe como mais uma tarefa do dia, e não como um momento íntimo e libertador. O autocuidado vira um mecanismo de controle, e a estética, um fardo. Mais do que melhorar a autoestima, esse modelo performático mina a identidade e transforma o corpo em vitrine, apagando o que é singular em nome do que é vendável. E o preço, além dos milhares de reais, é um psicológico derretido e transtornos desencadeados como: ansiedade, burnout e a desconexão de si. Além de agravar pessoas já diagnosticadas como border.


Você acompanha quem sua filha acompanha?


Diante do bombardeio de conteúdos estéticos nas redes sociais, é fundamental que pais e responsáveis estabeleçam uma relação de confiança e diálogo com seus filhos. A adolescência é um período de formação de identidade e, por isso, especialmente vulnerável às influências externas. “É importante que a conversa aconteça de forma leve, fora dos momentos de conflito, para que o adolescente se sinta acolhido e escutado”, orienta a psicóloga entrevistada.


Observar mudanças de comportamento, o tempo de uso de telas e o tipo de conteúdo consumido são atitudes essenciais para identificar possíveis sinais de alerta. Mais do que impor regras, o papel da família é o de criar um ambiente seguro para que o jovem possa refletir criticamente sobre o que vê. “Os pais não precisam controlar tudo, mas precisam estar presentes. Estar atento é diferente de vigiar”, reforça a especialista.


É importante que a conversa aconteça de forma leve, fora dos momentos de conflito, para que o adolescente se sinta acolhido e escutado - Gisele

É essencial acompanhar de perto o que as meninas consomem online, pois o que parece ser apenas um vídeo com dicas pode funcionar como uma armadilha perigosa, capaz de alimentar sentimentos de inadequação e até desencadear quadros de ansiedade, depressão e transtorno obsessivo-compulsivo (TOC). “Os pais não precisam controlar tudo, mas precisam estar presentes. Estar atento é diferente de vigiar”, reforça a especialista.


E quem trabalha na área?


A cosmetóloga Juliana Moreira, 25 anos, formada em Estética e Cosmetologia, acompanha de perto esse movimento e aponta o perigo da estética sem critério: “As pessoas estão pecando por excesso. Elas misturam muitos produtos e procedimentos esperando um milagre, mas às vezes só um ativo bem escolhido ou uma massagem já fariam o efeito”, afirma. Segundo ela, o que deveria ser um cuidado íntimo virou espetáculo, gerando mais frustração do que resultados reais.


Influencers, autoestima e a ilusão do milagre


Na lógica das redes sociais, o que importa é o que aparece no vídeo, não o que funciona. Influencers empilham cosméticos em frente à câmera como se cada etapa fosse indispensável, quando, na maioria das vezes, não é. “As pessoas estão fazendo o que veem outras fazerem, sem nem saber o porquê. Só para se sentir incluídas nesse universo estético”, pontua Juliana.


Reprodução/Pessoal
Reprodução/Pessoal

Esse comportamento tem impacto direto na autoestima, especialmente de meninas e mulheres que assistem a esses conteúdos acreditando que também precisam se transformar para serem aceitas. As famosas gummy hair, balas com sabor de fruta e promessas de cabelos mais fortes e longos, são exemplo disso: marketing intenso, estética infantilizada e quase nenhuma comprovação real de eficácia. O ciclo se repete: compra-se, testa-se, frustra-se e começa tudo de novo.

O marketing explora a vulnerabilidade das pessoas. O excesso veio com a influência das redes sociais. - Juliana

Capitalismo e a mercantilização do descanso


O sono, antes um momento natural de regeneração, agora é mais um espaço colonizado pelo mercado. E a consequência disso não é apenas econômica, mas emocional e física.

Juliana alerta: “A pele precisa respirar. Quando você sufoca com mil camadas, está inibindo uma das funções mais básicas do organismo”. Ela considera que o excesso de produtos à noite pode ser, inclusive, prejudicial. “Tudo demais tem efeito negativo. Parece loucura. Acredito mais em cosméticos com eficácia comprovada, boa massagem, boa rotina. O resto é excesso”, completa.


Por trás de tudo isso está a lógica capitalista que transforma qualquer necessidade em oportunidade de lucro. Se antes o descanso era gratuito, agora é preciso consumir para “descansar direito”. Dormir virou mais uma demanda estética, mais um produto.


“O marketing explora a vulnerabilidade das pessoas. O excesso veio com a influência das redes sociais. As pessoas acreditam que precisam daquilo tudo para serem bonitas ou aceitas”, diz Juliana. E isso não acontece por acaso: a indústria da beleza lucra bilhões alimentando inseguranças que ela mesma ajudou a criar.


Descansar também é resistência


A crítica ao excesso não é um apelo contra o autocuidado, pelo contrário. O cuidado genuíno com o corpo e a pele é legítimo. O problema é quando esse cuidado vira imposição, vigilância e endividamento emocional e financeiro. O problema é quando o sono deixa de ser nosso.


Dormir bem não exige um ritual de 12 passos, nem uma prateleira cheia de frascos importados. Talvez o verdadeiro autocuidado esteja em ignorar a vitrine, desligar o celular, e lembrar que seu corpo não precisa performar nada enquanto descansa.

Descansar, em tempos de monetização do sono, é também um ato de resistência.


3 comentários


tangosierrakaua
28 de jul. de 2025

Excelente orientações, no que diz respeito ao acompanhamento dos conteúdo prejudiciais, os quais nossos filhos têm acesso livremente. Sobretudo, é essencial o filtro destes acessos visando fomentar a saúde mental dos jovens.

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Isadora Cardeal
Isadora Cardeal
28 de jul. de 2025

Muito bom ☺️ 😍🤩

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Isadora Cardeal
Isadora Cardeal
28 de jul. de 2025
Respondendo a

🫶🏽❤️

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