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Injetáveis e o preço da magreza: quem usa Ozempic pode estar perdendo mais do que peso

Atualizado: 3 de jun. de 2025

O uso indiscriminado de injetáveis como Ozempic escancara uma crise de saúde pública e autoestima entre mulheres pressionadas a caber no padrão.

Coluna por: Natália Ferreira


A popularização de canetas como Ozempic e Mounjaro na busca por resultados milagrosos no emagrecimento revela os sintomas de uma crise estética e social brasileira. Esses injetáveis, que surgiram inicialmente como uma forma de tratamento para o diabetes, têm sido amplamente utilizados por quem deseja se aproximar dos padrões de beleza vigentes. Afinal, é fato que alguns dos efeitos desses medicamentos influenciam diretamente no peso corporal. Mas a que custo esses efeitos acontecem?


Como pessoa que convive com o diabetes tipo 1 há cerca de um ano, trago um esclarecimento sobre a doença, esses novos tratamentos e os riscos envolvidos na banalização desses medicamentos.



Ozempic é um medicamento injetável indicado para o controle do diabetes tipo 2 de uso adulto.
Ozempic é um medicamento injetável indicado para o controle do diabetes tipo 2 de uso adulto.

Como funciona o diabetes, afinal?


O diabetes é uma doença autoimune que afeta a produção de insulina no corpo. Nos casos do tipo 2, o organismo desenvolve resistência à insulina, o que pode ocorrer por fatores genéticos, obesidade, sedentarismo e alimentação inadequada. Já no tipo 1, o corpo produz pouca ou nenhuma insulina, devido ao mau funcionamento do pâncreas, órgão responsável por esse hormônio.


O tratamento para o diabetes tipo 1 é feito por meio da aplicação de insulina, que, assim como o Ozempic, pode ser administrada com canetas injetáveis. No meu caso, utilizo atualmente a insulina NPH, de ação intermediária, duas vezes ao dia. Existem também outras versões, como as de ação rápida. No início do tratamento, enquanto meu diagnóstico não estava definido, usei metformina, um comprimido bastante comum entre pessoas com diabetes tipo 2, que me causou enjoos e diarreia nas primeiras semanas. São efeitos semelhantes aos relatados por muitos que usam Ozempic.


Há ainda outros medicamentos, como a glicazida, que estimulam a secreção de insulina. Cada tratamento tem seus efeitos colaterais, formas de uso e dosagens específicas, ajustadas conforme o quadro clínico de cada pessoa. Minha avó paterna, por exemplo, é portadora de diabetes tipo 2 e faz uso de dois medicamentos diferentes no tratamento.


Sob essa perspectiva, percebemos o perigo de ver pessoas sem diabetes (ou com outros diagnósticos, como obesidade) utilizando essas canetas sem o devido acompanhamento médico.

Qual a importância da perda de peso para quem tem diabetes?


É de conhecimento geral que um dos fatores de agravamento do diabetes e também da chamada pré-diabetes, é a obesidade, especialmente quando associada ao sedentarismo. Por isso, medicamentos que auxiliam na perda de peso podem ser benéficos para quem tem a doença.


No entanto, poucos sabem que o controle do apetite promovido por essas medicações não serve apenas para tratar a obesidade. Ele é essencial no enfrentamento de um dos principais desafios do diabetes: a hiperglicemia. Quando nos alimentamos, ingerimos vários compostos: vitaminas, gorduras, sais minerais, carboidratos etc. Sem a insulina, o açúcar (nome comum para os carboidratos simples) permanece circulando no sangue, elevando os níveis de glicemia e provocando sintomas como fome constante e fadiga.


Quando recebi meu diagnóstico, os exames mostravam picos extremos de glicemia. E, adivinhem? Eu sentia fome o tempo todo. Além disso, me sentia fraca, mal conseguia subir um lance de escadas. Perdi 5 quilos em poucos meses.


O controle do apetite, portanto, vai além do emagrecimento: ele contribui para a estabilização da glicemia e pode evitar quadros graves e até fatais. Ainda assim, esses medicamentos têm sido buscados por outras razões, nem sempre legítimas.


Devemos restringir o uso das canetas injetáveis?


Como mencionei, esses tratamentos têm sua importância e podem, sim, beneficiar outras condições além do diabetes. No entanto, o uso indiscriminado por pessoas que desejam apenas perder peso de forma rápida, sem mudanças na alimentação ou prática de exercícios físicos, escancara um problema maior: o desejo nocivo de atingir um ideal estético inalcançável.


A busca obsessiva por Ozempic chegou a tal ponto que, em maio de 2025, menores de idade armados invadiram uma farmácia em busca do medicamento.

A pressão estética, alimentada pelas indústrias da moda, beleza, estética e farmacêutica, sempre encontra novas formas de seduzir pessoas com promessas milagrosas, especialmente mulheres. Segundo um estudo publicado na revista científica PLOS ONE, apenas oito minutos de exposição a conteúdos do TikTok sobre dietas, corpos magros e rotinas fitness foram suficientes para influenciar negativamente a autoestima de mulheres jovens.


Embora medicamentos como Ozempic não sejam diretamente associados ao universo da beleza, métodos invasivos não são novidade na rotina de muitas mulheres, e são muitas vezes naturalizados como se fossem inofensivos.


Por isso, vale lembrar alguns efeitos colaterais desses tratamentos: náusea, vômito, diarreia, constipação, dor abdominal, perda de apetite, indigestão, refluxo ácido e fadiga. Além disso, diversos usuários relataram ganho de peso após a interrupção do tratamento.


Seja por campanhas de marketing agressivas, seja pela ilusão de resultados instantâneos, a popularização dessas canetas revela uma fragilidade social profunda diante da obsessão com a aparência. São sujeitos famintos por uma perfeição estética que perderam de vista os sintomas que, de fato, adoecem seus corpos. São o retrato de uma anemia cultural.






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