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No Brasil, as mulheres negras são protagonistas da leitura, aponta pesquisa

Não consigo me lembrar qual foi o primeiro livro que li. O que me lembro é que eles sempre fizeram parte da minha infância, por mais que não fosse tão simples comprá-los devido às condições financeiras de uma família da classe C no Brasil. O pouco dinheiro não me fazia desistir da leitura. Era ela a responsável por me transportar para outras realidades. Mais felizes, mais bonitas e cheias de cores. Quando não podia comprar, pegava emprestado os livros da biblioteca da escola. Lia tudo e sempre me imaginava fazendo parte daquela história. Voava com Peter Pan e as crianças perdidas, fugia do lobo mau ao lado dos três porquinhos e era amiga da cachinhos dourados.


Já adolescente, eles se tornaram ainda mais presentes em minha vida. Quando não podia comprar, pedia emprestado às amigas do colégio, a biblioteca, mas não deixava a leitura de lado. Sempre juntava todo dinheiro que minha mãe me dava e comprava livros nos sebos, era bem mais barato e tinham histórias legais nas folhas de rosto. Dedicatórias apaixonadas, fotos ou recados esquecidos entre as páginas. Eram tesouros que traziam histórias muito além das que as páginas contavam.


Já no ensino médio eu acabei me distanciando da leitura. Entre estudos e a vida de uma adolescente, a leitura acabou ficando de lado, não conseguia me reconectar, por mais que tentasse. Foi uma professora a responsável por essa reconexão. Joana comprou livros e distribuiu entre alguns alunos. Meu título foi Helena, obra de Machado de Assis, que a partir dali se tornou meu autor preferido. Joana, acreditando na importância da leitura, comprou os livros que não podiamos comprar naquela época. Hoje tenho uma estante cheia de livros, já não cabem mais. Helena continua lá, como parte da minha história.


Não foi só em minha casa que esse número cresceu. Uma pesquisa recente da Câmara Brasileira do Livro revela que mulheres pretas e pardas representam 30% dos consumidores de livros no Brasil, além de 50% das mulheres que compram livros. O número de consumidores de livros no país cresceu 2 p.p. em relação ao ano anterior, 2024. Passando de 16 para 18%, crescimento equivalente a 3 milhões de consumidores.


Malu Leite é uma dessas mulheres. A jovem iniciou suas leituras aos 4 anos. Não se recorda qual foi seu primeiro título, mas se lembra que fazia parte de uma coleção de livros de bolso sobre contos de fadas. Se lembra bem das idas a biblioteca com a mãe. A menina pedia sempre para ir a esses lugares e passava teempos lendo os livros das prateleiras. O hábito da leitura vem do incentivo da mãe, também leitora, que sempre dava um jeito de comprar mais um livro para a filha.


Nessa época, ela ainda não se reconhecia nas leituras. Foi então que ao ler a obra Conectadas, da autora brasileira Clara Alves, que Malu se viu nos livros que lia. Primeira vez que a jovem estava tendo contato com personagens pretos, indígenas e exatamente no momento em que estava entendendo sua sexualidade.



“Eu acho que depois disso foi mais fácil pra mim entender que eu não era a única que estava passando por isso e que tinham outras pessoas que estavam passando por esse processo de se entender” afirma, Malu.

Malu hoje lê de tudo um pouco, mas não deixa de lado aquelas leituras mais leves, que nos transportam para outras realidades. No entanto, é nas realidades parecidas com a dela em que se reconhece. “Até poucos anos atrás ler era olhar de fora, era tentar ali traduzir alguns personagens pra me identificar minimamente com eles”, conta.


Sua prioridade agora é a leitura de autores e autoras negros. A jovem faz parte de um projeto que incentiva a leitura de autores de diversos países, com foco na América Latina, o que faz com que ela conheça outras formas de ler e realidades diferentes. Talvez esse seja um indicativo do aumento do consumo de livros, tendo destaque para mulheres pretas e pardas. Elas agora podem se reconhecer em autores e principalmente em personagens. Não há mais a necessidade de sempre traduzir personagens para se encaixar. Há personagens parecidos com elas, realidades idênticas e autores que entendem seus mundos.


“Existem particularidades da sua realidade que de fato a outra pessoa entende quando ela tem uma realidade parecida com a sua. Ler autoras negras, pra mim, vem muito nesse lugar de me sentir acolhida, me sentir vista e de entender que sim, existem outras pessoas que passam por isso e que te entendem”, comemora Malu.

 
 
 

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