Afinal, toda mulher quer mesmo um fascista?
- algodogenerolab
- 17 de nov. de 2025
- 9 min de leitura
Por: Samantha Freire
Essa é a segunda parte da série Mulheres, dark romance e o que vem no meio.
No dark romance, a possibilidade de se abstrair da realidade representada, principalmente quando apresenta cenas que podem ser de perigo e temidas pelas próprias leitoras em relacionamentos comuns, não está apenas em poder dispensar como “só ficção”, mas também no reconhecimento de que os conflitos retratados estão distantes da vivência de quem lê.
Enquanto violências e feminicídios se concentram, no Brasil, entre mulheres negras e em áreas dominadas por atividades como garimpo e terras indígenas em disputa, os livros de dark romance trazem histórias glamourosas, que se passam em terras distantes, onde garimpeiros viram Aidens mafiosos e jovens, e as protagonistas são mulheres convencionalmente atraentes. Em “Garotos Cruéis Perseguem Você”, Olivia Still é apaixonada por Brandon Walton, atirador de facas violento, acusado de tentativa de homicídio e com “comportamento condizente com transtorno de personalidade antissocial”. Em "Obsessão cruel", Enzo Marini, líder da máfia com missão de conquistar Las Vegas, sequestra Alysson Foster.
Se o trecho do poema de Sylvia Plath, “Daddy”, “Toda mulher adora um Fascista, A bota na cara, o bruto”, choca, sendo entendida por vezes não como uma crítica ao condicionamento de mulheres a desejarem relações com patriarcas mas um endosso, a autora dos livros O peso do vazio: Dançando com o mistério (Livro um da série Peões em Ascensão) e Corrompida: A corrida Derby (Livro 1 da série Herdeiros em Ascensão), Olivia Lautre, traduz em outros termos: o poder e a violência da elite são erotizados.
“É fácil rejeitar a maldade quando ela vem feia, sombria, gritante. Difícil é reconhecê-la quando ela se apresenta bela, educada, desejável” diz Lautre. A autora, que descreve suas obras como histórias que abordam a violência de gênero em ambientes de luxo, poder e prestígio, acredita que manter isso em seus livros é uma ferramenta narrativa para as críticas que pretende fazer neles.
O próximo livro a ser lançado, “A Favorita”, conta a história de Cherrie Young, uma jovem com Transtorno Dissociativo de Identidade (TDI), filha favorita do homem mais poderoso do ocidente e que, em seu aniversário de 18 anos, “pede” o pai (George) como presente para o mesmo. Nas peças promocionais, Cherrie é representada pela estética coquette, a mesma adotada nas peças de divulgação no Instagram.

Reprodução: Instagram
“[A estética] é a armadilha. É o que faz o leitor desejar o que deveria repelir. E eu ainda te pergunto: meus livros alcançariam público se o marketing parecesse manchete de jornal? Bem, eu já tentei, antes de me apresentar como autora de dark e taboo romance” diz a escritora. “Taboo romance”, termo usado por ela para definir suas obras, pode até parecer semelhante ao dark romance, mas se distancia em pontos cruciais. Lautre elabora: “enquanto o dark foca em relacionamentos disfuncionais e temas sombrios como abuso e manipulação, o taboo explora as estruturas sociais que criam esses relacionamentos. O taboo tem como foco explorar relações proibidas, o prazer está em provocar a moralidade.”
Em um post em que explica porque escreve taboo, Olivia reforça esse contraste ao citar dados sobre abuso em um card fofo. “Sempre ouvi dizer que Dark Romance e feminismo são opostos, e isso explica a mente corroída de vocês, moralistas, que aplaudem os darks com est-p disfarçado de CNC enquanto me atacam por mostrar a verdade como ela é. [...] Encerro assim minha janta. Agora vou lá escrever Cherrie sendo a sobremesa do papai. Até a próxima!”, escreve na legenda. Em um story no Instagram, prometeu “ilustras hots” (ilustrações explícitas), prática comum entre autoras de dark romance.
A estratégia estética e discursiva, no entanto, colocou o nome da autora no centro de uma polêmica que escalou para a necessidade de acionamento de seu advogado: no X e, posteriormente, no Tiktok, os trechos, somados à estética coquette das peças de divulgação (muito associada a obras como Lolita e à cantora Lana Del Rey, por exemplo) gerou incomodo por parecer, para os internautas, uma forma romantizada de apresentar temas como incesto, pedofilia e abuso.
“Em Favorita, eu trabalho Síndrome de Electra e a relação dela com o pai para explorar a metáfora máxima do patriarcado. Cherrie Young representa a construção extrema da feminilidade domesticada, onde o papel da mulher não é apenas ser desejável e intocável, mas ser uma extensão do domínio patriarcal, um reflexo do poder masculino. O ponto, que eu reconheço, é que ao partir para uma estratégia provocativa e fetichista, eu fiz parecer o oposto” comenta. No Instagram, após a polêmica, Olivia se defendeu divulgando trechos do livro, com as quais retruca as acusações de romantizar incesto e outros abusos: enquanto Cherrie desejava o pai, Europa, sua outra identidade, buscava vingança.

Reprodução: X
A autora alega que adotou a estratégia de reforçar os pontos problemáticos de forma provocativa para atrair leitores “acríticos” (que posteriormente, seriam confrontados com uma trama crítica que desconstrói a expectativa de um romance) após sua conta com 16 mil seguidores, em que abordava pautas como patriarcado e violência estrutural de gênero de forma que julgava responsável, ser derrubada em fevereiro deste ano.
“Enquanto algumas obras que tratam de temas sensíveis sem profundidade ou responsabilidade acabam sendo enaltecidas, um trabalho que sempre buscou o contrário acabou sendo demonizado e eliminado”, declara.
Isadora Urbano, doutoranda em Estudos Literários pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), explica que as representações literárias que exploram temáticas tabus podem, de fato, servir a propósitos muito diferentes e cita como exemplo Angela Carter, autora de "A câmara sangrenta e outras histórias", entre outros livros, sobre a qual desenvolveu sua pesquisa de mestrado, e a forma que esta buscou, através da “pornografia moral”, analisar e criticar relações de poder por uma ótica feminista. A pesquisadora cita Carmen Maria Machado, Nabokov e Hilda Hilst, especificamente com “O Caderno Rosa de Lori Lamby”, como exemplo de autores que, ao escreverem textos incômodos, “pagaram a pena” de colecionar más-interpretações e haters.
“Há textos profundamente incômodos que, se por um lado nos chocam ou angustiam, por outro provocam em nós uma inquietação que pode ser muito desejada, apesar de tudo, porque desestabilizam nossas certezas não por uma via argumentativa, mas pela produção de experiências afetivas de leitura que transformam a maneira como nos relacionamos com certas crenças, práticas e discursos. [...] Para alguns, basta que o texto seja capaz de prender o leitor ou o excitá-lo para que cumpra o seu propósito. Isso me parece um objetivo empobrecido diante das possibilidades do literário, mas não invalida a existência desse tipo de obra”, avalia.
Se tratando de comunicação humana, no entanto, a intenção do autor tem menos importância do que imaginamos: uma vez com o público, é ele que decide como interpreta a obra baseada em sua execução. Se a interpretação crítica é entendida como tal assim de imediato pelas leitoras de Lautre ou não, não é garantia, e para a autora, na verdade, tanto a perspectiva de quem detesta quanto quem deseja o vilão é válida. Lautre crê que a interpretação vem sempre com bagagens, e o importante é que provoque um questionamento sobre tal bagagem.
“O erro, para mim, não é quando a obra desperta prazer, ou mesmo identificação com figuras moralmente ambíguas. O erro acontece quando a arte não permite reflexão, quando entrega uma narrativa que obriga o leitor a pensar de uma só maneira [...] Quando minhas cenas são lidas apenas como ‘hot’, eu não me frustro. Porque até esse prazer é um espelho: ele mostra como fomos ensinadas a erotizar a dor, o controle, a submissão. O que me importa é que, em algum momento, a leitora pare e se pergunte: por que isso me atrai? Se essa pergunta surgir, o livro já cumpriu seu papel”, argumenta a autora, que vê a represália contra conteúdos como o seu como uma forma de censura que não protege, de fato, as meninas que podem ser afetadas.

A movimentação foi de mão dupla: a repercussão massiva, que reunião críticas e acusações à autora, foi respondida com notificações judiciais, também criticada no X.
Assim como para Olivia é importante lidar com a realidade, e não dissociar dela, para Ingrid Castro, leitora de 32 anos, o dark romance “é mais real” porque dialoga com possibilidades.
“Em um livro de fantasia nós temos o príncipe encantado, que é aquele homem perfeito. Não mata um bicho, não mata nada, não mata ninguém, não mata nem o vilão da história. Ele vai prender, vai mandar para a cadeia para que a justiça seja feita. Pronto. Em um dark romance, isso não vai acontecer. Porque normalmente o mocinho, vamos chamar assim, vai fazer justiça com as próprias mãos. Eu considero o dark romance mais próximo da realidade. Ele é menos fantasioso”, diz. Para a leitora, no entanto, é importante que o livro saiba separar e que o “mocinho” não aja como “vilão” com o interesse amoroso.
Tradwives, dark hot, pornô e heteronormatividade
Não é necessário ir em sub-gêneros nichados, “especializados” em tabu, para encontrar dinâmicas inequivocamente tóxicas romanceadas: Edward Cullen – vampiro de 117 anos que conquista a protagonista da saga Crepúsculo Bella Swan, 17 – conquistou de meninas na pré-adolescência a mulheres adultas com um comportamento que misturava hábitos controladores, stalking e invasão de privacidade com os ideais da escritora mórmon Stephenie Meyer de relacionamentos.
Anos depois, o vampiro mormon viraria um bilionário adepto de dinâmicas BDSM na fanfic e, posteriormente, livro e série de filmes “50 tons de Cinza”. Christian Grey estendeu o sucesso de Edward às mulheres de meia idade mantendo os hábitos de stalker, mas que agora menos conservador sexualmente, fazendo avançadas sexuais, que por vezes eram rejeitadas e ele ignorava.
Em ambas séries, embora longe de dark romance, o sucesso refletia um gosto de mulheres heterossexuais e como valores, mórmons ou não, estavam refletidos em namorados ideais, sensuais. Para Isadora, essa recorrência é parte de um gosto construído socialmente, à medida que os textos estão sempre em diálogo com normas culturais, seja em posição de encorajamento ou confronto, sejam estes deliberados e explícitos ou não.
“Me parece que esses personagens, cenas, tipos de relação, etc., que constituem um imaginário sexual muito persistente, não se estabelecem naturalmente [...], mas aparecem como produtos de uma sociedade que é heteronormativa e patriarcal, e que, via de regra, tende a criar entre homens e mulheres relações de dominação e submissão, que espelham, no sexo, as relações de poder que existem em tensão na vida social” explica.
Ive conta que não vê graça em histórias que contrastam uma protagonista virginal e um homem muito mais poderoso, tropo comum no dark romance. Para ela, o desejo de ser protegida e ao mesmo tempo corrompida pelo mesmo homem carrega fortemente traços de heteronormatividade.
“Geralmente a protagonista é virgem, toda recatadinha, e segue essa estética, enquanto o cara é rico, poderoso e sombrio, e ele não é virgem. E aí ele vem e corrompe a mocinha. Não gosto desse tipo de história, acho chato, acho que reproduz certas ideias que me incomodam. Não gosto porque muitas vezes há um cerceamento das liberdades das personagens e isso me incomoda”, reclama.
Do lado “masculino” da crítica, o consumo de dark romance, principalmente como forma de explorar fantasias, é comparado ao consumo de pornografia e rende apelidos como “degenerada” ou “depósito”. Para Isabela, a comparação não é justa. Embora tanto a pornografia quanto a literatura pornográfica tenham impactos na percepção sobre sexo ao reforceçarem de forma semelhante, por vezes, uma relação deturpada e abusiva com sexo, a primeira tem problemas mais profundos:
“Nos filmes, há pessoas reais que, por questões as mais diversas, entraram em uma indústria que sistematicamente adota práticas abusivas com relação aos atores e atrizes e que é responsável por estabelecer, sobretudo entre jovens, um comportamento sexual baseado em representações machistas e violentas”, explica. Para a pesquisadora, a pornografia pode ser considerado um problema social por sua associação com tráfico de pessoas, os prejuízos à saúde mental, o vício, a ansiedade quanto à aparência e à performance sexual, os abusos nos bastidores das gravações.
O Brasil figurou como o 7º país com maior tráfego no site PornHub em 2024, segundo o PornHub Insights, 22 milhões de pessoas assumem consumir pornografia. Entre o público, 76% são homens e 58% têm menos de 35 anos, de acordo com dados elaborados pela Quantas Pesquisas e Estudos de Mercado a pedido do canal a cabo Sexy Hot.
Segundo o PornHub, enquanto no mundo cresce o interesse em temáticas como “tradwife” (+72%) e “mórmon sex” (+92%), no Brasil o interesse segue sendo por vídeos de mulheres transexuais. Se as categorias não indicam nenhuma preferência particular por temas sombrios, “dark”, a realidade mostra a contradição: dos 105 assassinatos transfóbicos cometidos em 2024, que rende ao Brasil o título de país que mais mata pessoas trans pelo 17º ano consecutivo, 93,3% dos casos foram transfeminicídios, conforme apontam dados do Dossiê “Registro Nacional de Mortes de Pessoas Trans no Brasil em 2024: da Expectativa de Morte a um Olhar para a Presença Viva de Estudantes Trans na Educação Básica Brasileira”, da Rede Trans Brasil.
Ainda que o lugar de submissão sexual e social seja o ensinado para mulheres e reforçado pela igreja, pornô e influencers “alfa” que a ditam como uma característica da mulher de valor para que seus seguidores se relacionem, essa perspectiva, quando explorada por mulheres, não deixa de ser chocante. Para Isadora, a discussão aberta sobre a própria sexualidade já é um ponto de desconforto socialmente, especialmente a feminina, mas o espanto vai além disso.
“O choque surge quando essa sexualidade se apresenta fora do previsto, fazendo aparecer uma fantasia feminina que pode ser disruptiva, violenta, desviante, humilhante… monstruosa, enfim. Ao que me parece, é o excesso revelado por essas fantasias que, ao aproximarem-se de um grande potencial de destruição, repele e angustia. E que ele venha de pessoas que são socializadas para serem ora angelicais, ora encarnações de fantasias sexuais masculinas, só faz aumentar o descompasso entre a conduta sexual ‘normal’ esperada de mulheres adultas e o desejo que certas obras dão a ver”, diz.
Ive vê a comparação como inválida, esdrúxula e superficial, e argumenta que os livros são um combo que traz personagens complexos, problemáticos, histórias de amor entre pessoas quebradas que dão esperança. Que não é “sexo por sexo como é a pornografia”, mas não descarta a importância da prática:
“Somos em maioria mulheres adultas que querem consumir isso e tudo mais, e que não querem um romance que tenha só beijinhos e mãos dadas. E não tem problema nenhum nisso, né? Em gostar só de beijinhos e mãos dadas, assim como também não tem problema em querer cenas de sexo.”




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