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"Se ponha no seu lugar": o que o episódio com Marina Silva revela sobre os desafios de gênero na política ambiental

Por: Ariele Lima


Na última terça-feira (27), um episódio envolvendo a ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, escancarou os desafios de gênero enfrentados por mulheres em espaços de poder — especialmente no campo da política ambiental. Durante uma audiência na Comissão de Infraestrutura do Senado, convocada para discutir a criação de uma unidade de conservação na Margem Equatorial, região da Amazônia próxima a áreas de interesse da Petrobras, a ministra foi repetidamente interrompida por senadores e teve seu microfone cortado. Em tom autoritário, o senador Marcos Rogério (PL-RO) chegou a declarar: “Me respeite, ministra. Se ponha no seu lugar.”



Foto: Geraldo Magela/Agência Senado
Foto: Geraldo Magela/Agência Senado

O episódio escancara como o machismo institucional ainda molda, de forma velada ou explícita, as dinâmicas em espaços decisórios, dificultando a atuação de lideranças como Marina Silva. Sua trajetória, reconhecida internacionalmente pela defesa do meio ambiente, é também marcada pela resistência em contextos historicamente dominados por homens.

As crises climáticas, frequentemente tratadas como questões técnicas ou ambientais isoladas, são também expressões profundas de desigualdades sociais. Segundo o relatório “Feminist Climate Justice: A Framework for Action” (ONU, 2023), as mudanças climáticas não apenas intensificam desigualdades de gênero já existentes, como também ameaçam retrocessos nos direitos conquistados por mulheres ao redor do mundo. Ao mesmo tempo, são elas que, com frequência, lideram soluções sustentáveis e comunitárias para proteger o planeta.


Essa interseção entre justiça climática e justiça de gênero é central na atuação de figuras como Giovanna Bento Rubini da Silva e Natalia Tsuyama Cóloco. Ambas demonstram, por meio de suas trajetórias, que não é possível dissociar a luta ambiental da luta por equidade de gênero e justiça social.



 “A área ambiental não existe sem a social”


Aos 25 anos, Giovanna Bento Rubini da Silva é cientista ambiental formada pela UNIFESP e atua com gestão de resíduos. Desde a infância cercada por plantas e com um avô que já separava recicláveis antes do tema virar pauta urgente, ela sempre se sentiu encantada com o equilíbrio dos ecossistemas.


Giovanna Bento / Arquivo Pessoal
Giovanna Bento / Arquivo Pessoal


“Eu queria trabalhar para que aquela dinâmica quase mágica de equilíbrio sistêmico não se perdesse por nossas ganâncias ou desconhecimento”, conta. Foi assim que descobriu, ainda no ensino médio, que seu caminho estava na área ambiental.

Mas, com o tempo, percebeu que sua atuação não poderia ignorar as questões humanas e sociais: “Hoje entendo e defendo que a área ambiental não existe sem a social. É essencial que elas andem juntas”.


Para Giovanna, a presença de mulheres nas frentes de proteção ambiental não é coincidência, mas sim um reflexo de como a sociedade condiciona as mulheres ao cuidado. “A mulher é socializada a cuidar mais das coisas e pessoas do que os homens. E, por consequência, somos menos cuidadas. Por nós mesmas e por eles”, analisa. Ela também reconhece que o ambiente de trabalho ainda impõe barreiras às mulheres: A gente tem que diversas vezes se reafirmar como alguém que também está ali com a plena capacidade de contribuir e lutar por um espaço nas discussões.


Participação de Giovanna na WasteExpo Brasil, maior feira da América Latina dedicada à gestão de resíduos sólidos, reciclagem, limpeza pública e saneamento urbano / Arquivo Pessoal.
Participação de Giovanna na WasteExpo Brasil, maior feira da América Latina dedicada à gestão de resíduos sólidos, reciclagem, limpeza pública e saneamento urbano / Arquivo Pessoal.

A cientista ambiental defende que a solução passa por fortalecer laços entre mulheres. “Meu sonho é ver mulheres se unindo mais. Ainda na faculdade, criei com outras colegas um grupo para discutir nosso espaço no mercado. Acredito mesmo que essa união seja o caminho, ocupar os lugares e ajudar a abrir portas para quem está a caminho”.


Justiça climática é justiça de gênero


Natalia Tsuyama Cóloco cresceu no Cerrado brasileiro e, desde cedo, entendeu como a destruição ambiental afeta diretamente populações vulneráveis. Para ela, essa não é uma contradição, mas uma prova de que a luta ambiental precisa ser feminista.


Participação de Natalia no G20 Social, evento de participação nas discussões e na formulação de políticas do fórum / Arquivo pessoal.
Participação de Natalia no G20 Social, evento de participação nas discussões e na formulação de políticas do fórum / Arquivo pessoal.

“Foi nesse território que percebi como a defesa do meio ambiente está diretamente conectada à garantia de direitos, especialmente para mulheres e juventudes”, afirma. Hoje, Natalia atua com políticas públicas, lideranças climáticas e advocacy por justiça climática e igualdade de gênero.


Ela reforça o protagonismo das mulheres em soluções para a crise climática: “As mulheres lideram respostas comunitárias com base no cuidado, no conhecimento ancestral e na defesa dos territórios. A construção de redes feministas e intergeracionais é essencial para transformar essa realidade”.


Uma dessas redes é a Coalizão por Justiça Climática Feminista, da qual Natalia participa, que atua com incidência política por reparação, redistribuição de recursos e representatividade nos espaços de decisão.


Networking Day da Preparatory Youth Conference for the 2nd UN Food Systems Summit Stocktake (UNFSS+4), em Bangkok / Arquivo pessoal.
Networking Day da Preparatory Youth Conference for the 2nd UN Food Systems Summit Stocktake (UNFSS+4), em Bangkok / Arquivo pessoal.

Para tornar o ambientalismo mais inclusivo, ela aponta caminhos concretos: “Fortalecer alianças entre movimentos sociais diversos, garantir financiamento direto e acessível para organizações lideradas por mulheres, jovens, indígenas e pessoas racializadas. E democratizar os espaços de decisão com escuta ativa, inclusão digital e formação política de base”.


Mulheres, juventudes e territórios: os pilares da mudança


O impacto das mudanças climáticas sobre as mulheres é alarmante. O relatório da ONU revela que, sem ações estruturais, até 158 milhões de mulheres e meninas podem ser empurradas para a pobreza até 2050. Além disso, secas e crises ambientais têm ampliado a violência de gênero e o casamento infantil em diversos países.


Enquanto isso, o trabalho de cuidado não remunerado, majoritariamente feminino, segue invisível nas métricas econômicas, embora seja amplificado por problemas como a escassez de água.


Por isso, o movimento por Justiça Climática Feminista propõe quatro pilares de transformação: Reconhecimento, Redistribuição, Representação e Reparação, sempre guiados pela interdependência dos direitos humanos, ambientais e sociais.


Ambas as entrevistadas deixam um recado claro para meninas e jovens mulheres que querem trilhar esse caminho.


“Não caminhem sozinhas”, aconselha Natalia. “Participar de coletivos e espaços de formação foi decisivo para minha atuação. Não esperem a ‘formação ideal’ para começar — seus saberes e vivências são potentes”.


Giovanna complementa: “Não se conforme com o pedaço de espaço que te derem. Confie no seu potencial, ajude e lembre de quem te ajudou. Precisamos abrir portas umas às outras”.


A crise climática não é neutra. E a justiça ambiental, para ser de fato justa, precisa olhar para as mulheres, suas realidades, seus saberes e suas lideranças. Lutar por um planeta sustentável é, também, lutar por um mundo mais igualitário para todas.






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