A carne mais barata do mercado: bebês morrem após frigorífico negar atendimento de urgência a funcionária grávida
- Ariele Lima

- 30 de jun. de 2025
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Coluna por: Ariele Lima
Abril de 2024, às 3h40. Uma mulher negra de 32 anos, natural da Venezuela, mas que mora no Brasil, foi impedida, duas vezes seguidas, de sair do frigorífico que trabalhava para procurar ajuda médica. A justificativa era que a linha de produção do seu setor ainda estava ativa, então ela devia continuar. Na data, a funcionária estava grávida de 8 meses, numa gestação gemelar e entrando em trabalho de parto. Após a recusa da gerência da unidade em liberá-la, a mulher resolve sair por conta própria do local.
A venezuelana, com ‘dores intensas, ânsia de vômito, tontura e falta de ar’, como explicita um trecho do material publicado pela justiça, vai até o ponto de ônibus, ainda dentro do perímetro da empresa, mas já não há mais tempo. A bolsa amniótica rompe. A primeira filha morre logo após vir ao mundo, a segunda alguns minutos depois. A vida de duas crianças negras era ceifada e a vida de uma mulher negra seria marcada para sempre, e o sol ainda nascia, a cena aconteceu às 6 da manhã.
A quem é protegido o direito de maternar e a auréola angelical de portadora da vida? No caso dessa mulher negra, sua própria saúde e integridade da sua família deveria ser deixada de lado em prol de uma linha de produção. Em meio ao maquinário de um frigorífico, o capitalismo continuava a carnificina de corpos negros em prol do lucro. Mesmo diante de uma emergência médica vital, a ideia do "lugar natural" do negro ser de servidão e desumanização, onde a saúde e a vida são secundárias à produção, remete aos escritos de Lélia Gonzalez.
No artigo “Racismo e sexismo na cultura brasileira”, Lélia destaca que a articulação do racismo com o sexismo “produz efeitos violentos sobre a mulher negra em particular” (Gonzalez, 1984, p.224). No texto, a autora explicita as divisões de caráter sexual e racial no trabalho, que organiza como se cada grupo ocupasse um “lugar natural” que lhe é reservado:
“O lugar natural do grupo branco dominante são moradias saudáveis, situadas nos mais belos recantos da cidade ou do campo e devidamente protegidas por diferentes formas de policiamento que vão desde os feitores, capitães de mato, capangas, etc, até à polícia formalmente constituída. (...) Já o lugar natural do negro é o oposto, evidentemente: da senzala às favelas, cortiços, invasões, alagados e conjuntos “habitacionais” (...) dos dias de hoje, o critério tem sido simetricamente o mesmo: a divisão racial do espaço (...).” (Gonzalez, 1984, p. 232- 233)
A divisão racial do trabalho é nada mais que a manutenção da dinâmica permanente na sociedade entre a casa-grande e a senzala, um dos braços de apoio das velhas relações racistas, coloniais e patriarcais do capitalismo brasileiro.
A justiça do Mato Grosso determinou a indenização da funcionária, que receberá R$150 mil por danos morais. Em sua defesa, a BRF, empresa envolvida no caso, negou ter sido negligente, afirmando não ser uma gravidez de risco e que, supostamente, a mulher teria negado atendimento interno da empresa.
Como uma pessoa em sofrimento agudo e com dores intensas, após ter sido explicitamente impedida de buscar ajuda externa, seria capaz de tomar uma decisão plenamente consciente sobre "negar atendimento interno"? A narrativa constrói um tentativa de transferir a responsabilidade para a vítima, deslegitimando seu sofrimento e a urgência de sua condição.
É crucial enfatizar que nenhuma quantia financeira pode substituir a perda irrecuperável de duas vidas. O impacto não é apenas financeiro, mas psicológico, emocional e existencial. Um valor monetário, por maior que seja, é insuficiente para induzir mudanças sistêmicas profundas nas práticas corporativas e na forma como o trabalho de pessoas marginalizadas é valorizado (ou desvalorizado) no Brasil. O sistema judicial, ao quantificar a dor, inadvertidamente permite que grandes corporações encarem tais eventos como um "custo de fazer negócios" em vez de uma falha moral e ética inaceitável.
Não se trata de um infortúnio do destino, a negligência sobre esses corpos é premeditada e possui apoios em diversas camadas sociais. A mulher negra, base da sociedade como conhecemos, é também vitimada por estruturas que, citando novamente a grande Lélia Gonzalez, as querem naturalmente como cozinheira, faxineira, servente, cobradora de ônibus ou prostituta” (Gonzalez, 1984, p. 233). O genocídio da população negra começa pelo ventre de quem a carrega.




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