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Qual o peso de uma lágrima que escorre no rosto de uma mulher negra?


Eu era jovem demais para entender os olhos d’água descritos por Conceição Evaristo como a cor dos olhos de sua mãe. Quando as lágrimas de duas gerações de mulheres negras se uniam num abraço apertado ao fim do conto, meu coração sentiu mas a consciência não alcançou. 


Mas nos últimos dias foi impossível não ser afogada por esse rio. Uma imensidão de lágrimas negras, cansadas, jorrando pelo mesmo chão em que suas crias, amigos e amores, numa fileira fúnebre de 121 mortos. 


O último país a abolir a escravidão no mundo, ainda vive sob moldes racistas de representação da mulher negra. Nas prateleiras de suas escolhas editoriais ainda estão: a mulata, a mãe preta, a mucama e a raivosa. Em todas elas uma nova oportunidade de lucrar. 


Ponham-nas no centro das notícias, do julgamento público, no centro dessa maca onde todos possam experimentar quanta dor o corpo negro aguenta, de que é feito, até onde vai com essa carga que lhe foi imposta. A quais ouvidos interessam o grito de uma mulher negra em pleno desespero? 


Àquelas que sustentam a maior parte do trabalho doméstico no Brasil, que representam a maioria das chefes de família e das mães solo, é colocada em xeque sua honra, sua capacidade de educar um filho, de escolher um parceiro “de bem”, um “homem de valor”. A elas é imposta a culpa pela própria solidão, pelo próprio abandono.


Mulheres negras são 56% das vítimas de estupro no Brasil. Mulheres negras são 63% das vítimas de feminicídio no Brasil. Mães negras são as que mais sofrem violência obstétrica e as que mais morrem de causas evitáveis no Brasil. E agora vocês querem ensinar a mulheres negras as consequências da violência? Essas mães não falharam com seus filhos, o Estado falhou com essas mães!

Nasci embalada por braços negros de uma mulher que antes mesmo de ser alfabetizada já conhecia o trabalho braçal por sobrevivência, e que nasceu de um ventre negro que enfrentou o mundo tendo como única rede de apoio sua fé. 


Mulheres negras chegaram ao Brasil colônia reinventando seus modos de ser, lutando contra a vida servil e a animalização a qual eram submetidas. Mulheres negras andavam dias e noites com tabuleiros sobre a cabeça pela alforria daqueles que amava, pela liberdade do seu sangue. Mulheres negras, até os dias atuais, sustentam suas casas pela força de seus braços negros.


Mas quem observa os olhos dessas mulheres? Qual o peso de uma lágrima que escorre no rosto de uma mulher negra? 


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