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Não é por ser mulher que não sei jogar

Aos 31 anos, a baiana Elizabeth Cristina compartilha sua trajetória no COD Mobile e expõe o machismo que ainda marca o universo gamer. Pesquisa aponta que 59% das mulheres escondem o gênero online para evitar assédio.

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Em um universo digital onde os reflexos contam tanto quanto a mira, ainda são muitos os obstáculos que mulheres enfrentam simplesmente por serem jogadoras. É o caso de Elizabeth Cristina, 31 anos, jogadora de Call of Duty: Mobile, que desde o início precisou se impor diante do machismo dentro do jogo.


“Diziam que iam me carregar, como se eu fosse um peso. Era uma forma de me menosprezar só por eu ser mulher”, lembra. A expressão, comum no vocabulário gamer, é usada para descrever quem joga mal e precisa que os outros carreguem a partida. Mas, ao invés de se calar, Elizabeth respondeu com o que mais incomoda seus críticos: habilidade. “Eu sempre mostrei que não é porque sou mulher que não posso gostar ou saber jogar. Muitas vezes, só sendo melhor que eles era o suficiente.”


Mesmo com bom desempenho, ela conta que teve sua capacidade subestimada diversas vezes. “Por muito tempo isso aconteceu. Mas nunca pensei em esconder quem sou.” Diferente de outras mulheres, que preferem usar nicks neutros ou evitar o microfone para escapar de situações abusivas, ela encara o ambiente hostil de frente. “Eu respondo ou simplesmente silencio os microfones. Se esconder nunca foi a melhor forma.”


Essa atitude, embora firme, não é a única forma de resistência. Muitas jogadoras acabam optando por invisibilizar sua identidade como forma de proteção. De acordo com uma pesquisa da Reach3 Insights e da Lenovo (2021), 59% das mulheres escondem seu gênero durante partidas online para evitar assédio e comentários ofensivos, um dado que escancara a toxicidade enraizada no meio.


Apesar das dificuldades, Elizabeth encontrou acolhimento em outras jogadoras. Hoje, ela integra um squad formado por mulheres, onde há apoio e parceria. “A gente sempre joga juntas, e se ajuda muito. No nosso grupo, felizmente, as questões de machismo são bem menores.”


Mas ela sabe que nem todas têm a mesma sorte. Em jogos como Valorant e Overwatch, por exemplo, um estudo da Offenburg University (2025) identificou que insultos verbais aparecem em mais de 80% das partidas com chat de voz, e que 14% apresentam algum tipo de assédio sexual. Isso sem contar os impactos emocionais: segundo uma pesquisa da Sky Broadband, no Reino Unido, quase metade das jogadoras já foi insultada ou assediada verbalmente, e 27% relataram medo de ataques que ultrapassassem o virtual.


Diante desse cenário, Elizabeth defende mudanças estruturais. “Se existisse uma forma de rastrear falas preconceituosas e os jogadores fossem realmente punidos, isso ajudaria bastante. O problema é que a maioria desses comportamentos passa impune.”

Enquanto isso, mulheres como ela seguem resistindo, na mira, na estratégia e na coletividade. Porque jogar, para muitas, não é só lazer: é também uma forma de ocupar espaço, se afirmar e transformar o cenário, um headshot de cada vez.



REFERÊNCIAS


  1. REACH3 INSIGHTS; LENOVO. Survey on women hiding gender in online gaming, 2021. Disponível em: https://www.reach3insights.com.

  2. RIBEIRO, Antonio. Pesquisa revela que uma em cada dez mulheres cogita suicídio após sofrer ameaças em jogos online, GameBlast, 28 maio 2023. Disponível em: https://www.gameblast.com.br

  3. BUSTOS‑ORTEGA. Women's Experience of Online Harassment in the Gaming Community, Gender Justice Project, out. 2023. Disponível em: https://genderjusticeproject.org.

  4. OFFENBURG UNIVERSITY. Sexual Harassment in Valorant and Overwatch Voice Chats, estudo citado por Polygon, 3 abr. 2025.

  5. UMH – UNIVERSIDADE MIGUEL HERNÁNDEZ DE ELCHE. GamerVictim research project, 2025.


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