“Nosso passo é coletivo e ancrestral”: as estratégias dos movimentos de mulheres negras para construir luta em Salvador
- algodogenerolab
- 7 de ago. de 2025
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Por: Samantha Freire
“Convide sua vizinha, amiga, colega de trabalho. Mobilize sua escola, igreja e comunidade, e vamos juntas", dizia o panfleto da 13ª edição do Julho das Pretas, distribuído pelo Comitê Baiano da Marcha das Mulheres Negras. A Marcha aconteceu na sexta-feira, 25 de julho, data em que se celebra o Dia Internacional da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha e o Dia Nacional de Tereza de Benguela. Em 2025, o ato ocorreu em 16 cidades brasileiras, entre elas, Salvador.

Criado em 2012 pelo Instituto Odara, o Julho das Pretas dá visibilidade às pautas das mulheres negras. Em sua 13ª edição, foram realizadas 634 atividades por mais de 250 organizações, em 18 estados, no Distrito Federal e também na Colômbia e no Reino Unido. Entre os grupos participantes, destacam-se a Articulação de Organizações de Mulheres Negras Brasileiras (AMNB), com 45 entidades, a Rede de Mulheres Negras do Nordeste e a Rede Fulanas – Negras da Amazônia Brasileira. As ações deste ano preparam o caminho para a 2ª Marcha Nacional de Mulheres Negras, pelo bem-viver marcada para 25 de novembro, em Brasília, dez anos após a primeira edição.
Passos que vêm de longe
O Instituto Odara nasceu há 15 anos, mas sua fundadora, Valdecir Nascimento, tem trajetória mais longa. Aos 20 anos, nos anos 1980, foi atraída pela radicalidade do Movimento Negro, onde encontrou ferramentas para a militância que já praticava desde jovem em grupos comunitários. Nas comunidades, a luta era por direitos básicos: educação, saneamento, água potável, redução da mortalidade infantil.
“Na década de 1980, os movimentos de bairro lutavam por moradia, saneamento, transporte, energia elétrica. Quem fazia essa luta eram mulheres negras. Sabíamos que éramos mulheres negras, mas isso não era bandeira ainda. A luta era por dignidade para a comunidade”, relembra Valdecir, com 45 anos de militância.

Hoje, Valdecir integra a AMNB, a Rede de Mulheres Negras do Nordeste e coordena a sub-região Brasil da Rede de Mujeres Afro-Latinoamericanas, Afro-Caribenhas y de la Diáspora. Sua vivência influenciou a metodologia do Odara: escuta, rodas de diálogo e troca de experiências. “O que pensa a professora Ângela Figueiredo é tão importante quanto o que pensa Dona Dalva do Samba. Uma precisa da outra para produzir conhecimento.”
O Odara atua em programas de Direitos Humanos, Comunicação, Saúde e Formação Política. Destacam-se projetos como:
"Minha Mãe Não Dorme Enquanto Eu Não Chegar": apoio a mães de jovens vítimas da violência.
"Nós por Nós": observatório de justiça reprodutiva no Nordeste.
Projeto Ayomide Odara: formação de meninas de 9 a 18 anos em educação e direitos humanos.
"Dijó – Mulheres Negras Contra a Violência": debates sobre violência doméstica.
Outro projeto de destaque é a Escola Beatriz Nascimento, criada em 2020 para fortalecer a formação política de mulheres negras. A 2ª Marcha Nacional das Mulheres Negras por Bem-Viver e Reparação quer levar 1 milhão de mulheres às ruas, um número expressivo, mas ainda pequeno diante das 57 milhões de mulheres negras brasileiras.
Mas o que é, afinal, bem-viver?
A ativista acredita que o foco deve ser nas convergências. “Sabemos que há pontos de união e separação. Mas onde é que a gente se encontra?”, afirma Valdecir.
Para Cláudia Isabele Pinho, integrante do Movimento de Mulheres do Subúrbio GINGA, o conceito precisa ser construído a partir da escuta. “Não posso falar pelas mulheres negras. Precisamos ouvir, sistematizar os debates, as rodas, os seminários. O que cada território chama de reparação e bem-viver?”.
GINGA: o movimento que nasceu da resistência das rifeiras
Segundo Cláudia, a mobilização em torno da Marcha fortalece coletivos e redes. “Mostramos quão políticas somos, nossa capacidade de coesão, de formar coalizões, de mover mulheres. Somos um grupo majoritário do ponto de vista demográfico e somos quem dá corpo às políticas públicas.”

Essa articulação nasce nos territórios. No cotidiano, grupos como o GINGA atuam reunindo vizinhas, amigas, colegas e lideranças comunitárias para marchar, dialogar e reivindicar direitos.
Edna e Marta Pinho fundaram o GINGA em 2010. Antes mesmo de se formalizarem, já eram referência para mulheres vítimas de violência. A organização surgiu do desejo de apoiar mulheres que trabalhavam com rifa do bicho, muitas em condições precárias.
Com o tempo, o GINGA ampliou sua atuação: prevenção de ISTs, promoção da saúde, formação em direitos. Durante a pandemia, distribuiu cestas básicas, máscaras e itens de higiene. Hoje, mantém uma cozinha comunitária e trabalha na criação de uma cooperativa de trabalho.
GRUMAP: quando a luta muda de nome
No GRUMAP, o bem-viver começa com a escuta. Toda terça-feira, há mais de 40 anos, o grupo se reúne. É lá que muitas mulheres compreendem, pela primeira vez, o impacto do racismo em suas vidas. O Grupo de Mulheres do Alto das Pombas é uma das organizações que passaram pela Escola Beatriz Nascimento. Surgiu em 1982, a partir do Clube de Mães, criado por moradoras preocupadas com as condições precárias das escolas da região. A professora aposentada Rita de Cássia Santa Rita, a Ritinha, relembra o estopim: um episódio de violência policial resultou na prisão de uma mãe, Regina, que havia deixado os filhos amarrados em casa para ir trabalhar. As crianças foram levadas pelo juizado e Regina, presa por 20 dias.
A mobilização para libertá-la reuniu ativistas como Luiza Bairros, Valdecir Nascimento e integrantes do NEIM e da OAB. Após o episódio, as mulheres decidiram que sua luta era mais do que materna – era de raça, gênero e classe.

“No dia 8 de março de 1982, deixamos de ser um clube de mães e nos tornamos o GRUMAP. Estávamos saindo da ditadura militar e entrando na ditadura burguesa, como dizia Dona Humberta”, relembra Ritinha.
Desde então, o grupo atua com formação de mulheres negras, juventudes, articulação política e sustentabilidade institucional, mantendo, há mais de 40 anos, rodas de conversa semanais que reúnem até 70 mulheres.
A importância da primeira pessoa
Ritinha conta que, apesar de atuarem por toda a comunidade, suas pautas não eram acolhidas pelos homens da Associação de Moradores, nem pelo feminismo branco da época. A necessidade de construir espaços próprios cresceu a partir dessas exclusões.
“Precisamos construir espaços onde nossas questões sejam consideradas e possamos falar em primeira pessoa. Isso é central”, afirma Cláudia Isabele. Ela prefere chamar o chamado “feminismo branco” de “feminismo encurtado pela branquitude”, e critica também organizações de esquerda que rejeitam os recortes de raça e gênero.
Para Valdecir, a crítica ao chamado “identitarismo” revela desconhecimento e paternalismo. “Talvez seja um movimento social dirigido para brancos, pelos brancos. Eles acham que quem está na comunidade não sabe. Mas somos nós que temos o conhecimento para ensinar outras formas de fazer.”




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