O ponto zero da revolução
- Bárbara Valentine

- 20 de jun. de 2025
- 7 min de leitura
Atualizado: 20 de jun. de 2025
Como mulheres na Baixada Fluminense constroem novas formas de existir através da coletividade.
Por: Bárbara Valentine
“Tudo começou com ela. Ela via essa necessidade das mães”, conta Edinamar, vice-presidente da Casa, sobre a iniciativa de Sandra dos Santos, fundadora do projeto que em 2025 completa 14 anos. Localizada a poucos metros do CAI-Baixada, unidade socioeducativa do município de Belford Roxo, a Casa Mãe Mulher começou quando Sandra se sensibilizou com as histórias das mães nos dias de visita à instituição socioeducativa.
Apesar de ser concursada como cozinheira, Sandra atuou em muitas frentes no Degase, colaborando inclusive com a etapa de revista que antecede as visitas. Foi nesse momento, quando ouviu e viu muitas injustiças, que a ativista pelo direito das mulheres se sensibilizou com toda a falta a qual eram expostas as familiares dos jovens apreendidos. “Eu pensei em abrir a Casa só pra receber essas mulheres, para que pudessem usar o banheiro”, explica. “A ideia surgiu por causa de uma mãe que viajou a noite toda, veio de Itaperuna e estava menstruada. Imagina ela chegando, toda suja, sem ter onde se limpar, sem poder usar um banheiro, tendo que esperar horas na fila.”

Sandra dos Santos e Edinamar Moreira da Silva são os nomes à frente da Casa Mãe Mulher. Elas, que se conheceram há cerca de 12 anos durante um curso de teologia, cultivam a amizade que nasceu ali e que rapidamente se transformou em uma parceria de vida e de luta. Na época, a Casa Mãe Mulher já havia sido fundada por Sandra, que era funcionária pública pelo Degase. Edinamar, professora do estado há um ano aposentada, chegou pouco tempo depois da fundação, convidada para assumir a vice-presidência da ONG. Desde então, caminham lado a lado na construção do espaço. Hoje, além da experiência de vida e da atuação comunitária, as duas também compartilham a formação acadêmica: são assistentes sociais e psicanalistas, formadas juntas.
O projeto, que hoje tem a palavra casa no nome, na verdade começou com uma barraca ao lado da unidade do Degase, na Rua Olavo Batista, onde Sandra e outras voluntárias organizavam a fila para que as visitantes pudessem ir ao banheiro, oferecendo também café da manhã, água e escuta. “Comecei do outro lado da rua, numa barraca. Mas quem é que vai se abrir ali? Falar da própria vida pra um monte de mulher estranha sem um lugar de verdade. Foi essa a primeira dificuldade, estar debaixo daquela barraca”. Quando a necessidade por um espaço mais acolhedor se fez necessária, surgiram novas barreiras a serem enfrentadas. Encontrar alguém disposto a alugar um imóvel para acolher as mulheres que faziam visita ao CAI-Baixada trouxe dificuldades que iam desde a falta de recursos financeiros até o estigma que essas mães carregam. “Naquela época, 250 reis era muito dinheiro pra gente, só de aluguel, fora luz e outras despesas”, lembra Sandra. “E a dona do imóvel me cobrou esse valor, mas deixou claro: ‘Eu não quero ter contato com essas mães de bandido’”.
Hoje, a Casa conta com 11 mulheres — entre elas, advogada, pedagoga, psicanalista, cozinheira e outras profissionais que mantêm o espaço funcionando de maneira voluntária. Às quartas-feiras e aos sábados, dias de visita, o espaço enche e o acolhimento começa com um café da manhã colaborativo, que se estende até o almoço. Nas visitas, as mães costumam levar para seus filhos itens de higiene e alimentos, mas os mantimentos somados ao custo da viagem até a unidade aumentam ainda mais a situação de vulnerabilidade dessas mulheres. “Já vi mãe desmaiar na fila da visita, de fome”, relata Sandra. Além da alimentação, o espaço da Casa Mãe Mulher oferece um pequeno acervo de roupas doadas, que atende visitantes que precisam trocar de roupa e funciona também como fonte de renda por meio do brechó realizado nas quartas e sábados.
O espaço que, a princípio, tinha um objetivo simples: oferecer um banheiro, alimentação e um lugar minimamente digno para que essas mães pudessem se higienizar e descansar. Com o tempo, no entanto, foi se ampliando. “No início, era só por causa do banheiro, mas a Casa se tornou muito mais do que isso. Foi até apontada como o primeiro espaço para esse tipo de acolhimento para famílias”, conta Sandra. Na Casa, são oferecidas oficinas de pintura, costura e educação financeira, além de uma roda de leitura e conversa. “Fazemos rodas de conversa sobre mulheres negras que venceram na vida”, afirma Sandra. “Sempre falo da Carolina Maria de Jesus. Ela é uma grande inspiração. Uma mulher que era catadora de lixo, escrevia pouco, mas olha quantos livros deixou. E essas histórias inspiram muito essas mulheres.”


As mulheres mães e o território
Majoritariamente negras, pobres e moradoras de periferias, muitas vindas de cidades do interior, o perfil das mulheres que visitam o CAI-Baixada é bastante específico. “Teresópolis, Macaé, São Pedro da Aldeia, Nova Friburgo... só lugar longe. É muita gente que vem de longe. E a maioria? Só gente pobre. Engraçado, né? Parece que só pobre é que faz besteira”. A elas, cabe não só enfrentar o luto simbólico de ter um filho encarcerado, mas também o peso da responsabilização. “A maior parte das visitas é feita por mulheres, homens quase não vem. Toda a carga fica com a mulher, né? Dizem que é ela que não soube educar, que não soube conduzir o filho. A culpada é sempre a mãe, mas, se você parar pra conversar, a maioria é mulher solo”.
Dados divulgados pelo IBGE em 2023 apontam que, de todos os adultos brasileiros que moram sozinhos com os filhos, 86,4% são mulheres. Segundo uma pesquisa realizada pelo Instituto Brasileiro de Economia, da Fundação Getulio Vargas (FGV), revela que, na última década, o número de mães solo no Brasil sofreu um aumento significativo. Entre 2012 e 2022, esse grupo cresceu em 1,7 milhão de mulheres, das quais impressionantes 90% são mães negras.
O caminho dessas mães até as unidades socioeducativas não começa no dia da visita, é um trajeto longo marcado por violações de direitos básicos constantes. A Baixada Fluminense concentra alguns dos piores indicadores sociais da Região Metropolitana do Rio de Janeiro. Belford Roxo, município onde fica a Casa Mãe Mulher e a unidade CAI-Baixada, faz parte desse cenário. Com uma população estimada em mais de 518 mil pessoas, é o sexto município mais populoso do estado e ocupa a 70ª posição no ranking do Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) entre as 92 cidades do Rio de Janeiro. Em 2003, 60,06% da população vivia em situação de pobreza, quase o dobro da taxa da capital (32,44%). A pobreza subjetiva, que considera não só a renda, mas também a percepção de bem-estar e acesso a direitos, era de 32,87%, contra 18,58% na cidade do Rio de Janeiro.
Na educação, o cenário não é diferente. Apesar de uma taxa de escolarização de 96,2% entre crianças de 6 a 14 anos, Belford Roxo ocupava, em 2010, a 82ª posição no ranking estadual. Quando se observa a qualidade, os dados são ainda mais desanimadores: em 2023, o Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (IDEB) foi de 4,8 nos anos iniciais e 3,7 nos anos finais do ensino fundamental, ambos entre os piores desempenhos do Rio de Janeiro e do país.
Em uma lógica cruel, o mesmo Estado que não garante direitos básicos é o que chega rapidamente para punir. E as práticas punitivistas do Estado se fazem presentes não só na vida dos jovens apreendidos no sistema socioeducativo, mas no cotidiano das mães, que acabam arrastadas para a linha de frente do problema. Em um território de ausências, a Casa Mãe Mulher ocupa o lugar que deveria ser do poder público: garantir proteção, dignidade e suporte às famílias.
Luta, substantivo feminino
A filósofa Silvia Federici em seu artigo Na luta para mudar o mundo: mulheres, reprodução e resistência na América Latina, traduzido para o português por Luciana Benetti Marques Válio, pensa de que maneira a luta das mulheres está diretamente ligada à reprodução da vida e à resistência contra o patriarcado na América Latina. “Por sofrerem diretamente as consequências das crises que afetam suas comunidades, as mulheres, por sua vez, criaram formas mais autônomas de reprodução social, ao refazerem a trama comunitária, rompida pelas políticas econômicas brutais e pelo terrorismo do Estado. O ativismo das mulheres é atualmente uma força importante para a mudança social na América Latina e uma inspiração para as feministas e os outros movimentos ao redor do mundo”.

Historicamente responsáveis pela reprodução social, ao fazer a economia do cuidado girar através do fornecimento de alimentação e suporte físico e emocional, as mulheres transformam esse trabalho, muitas vezes invisibilizado, em uma ferramenta política de mudança social. Na América Latina, elas criam formas coletivas de existência que garantem a sobrevivência de suas comunidades e desafiam modelos econômicos extrativistas, a violência estatal e as estruturas patriarcais. Esse movimento leva o trabalho do cuidado para o centro da luta social. Exemplo disso são as cozinhas comunitárias, hortas urbanas, cooperativas, espaços educativos e de proteção, iniciativas que crescem em várias regiões.
A Casa Mãe Mulher se insere exatamente nessa lógica, funcionando como um espaço de construção de autonomia, cuidado e proteção, especialmente para mulheres em situação de vulnerabilidade. Quando Sandra organiza café da manhã, oferece rodas de leitura e formação, ela coloca em prática exatamente o que Federici aponta: transformar o trabalho de cuidado em ferramenta de resistência e construção coletiva. Para a organização, cuidar é também um ato político. Ao garantir condições dignas para mulheres e seus filhos, elas enfrentam na prática o racismo, o patriarcado e a desigualdade social.
Essa relação se traduz no fortalecimento de redes de apoio mútuo e no surgimento do Projeto Casa Filho, criado por Rosilene, uma das mulheres acolhidas pela Casa Mãe Mulher, que desenvolveu um trabalho voltado para crianças em situação de vulnerabilidade social na região. Sobre essas iniciativas territoriais de organização comunitária, Silvia Federici concluí: “As mulheres estão construindo novas formas de existência que rejeitam a lógica de mercado e as políticas mais recentes sobre a reprodução da vida cotidiana, canalizando o poder das relações afetivas que tradicionalmente caracterizaram a esfera doméstica na produção da solidariedade social. Seus esforços redefinem aquilo que entendemos por “política” e “democratização” e recodificam o feminismo, transformando o trabalho cotidiano, social e reprodutivo em ação coletiva que converte os bairros em comunidades de resistência à exploração capitalista”.




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